Antropofagia científica | AGÊNCIA FAPESP

Antropofagia científica

26 de setembro de 2005

Por Eduardo Geraque

Agência FAPESP - "Viva o Brasil!" Com essa exclamação, Bernardo Beiguelman, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), encerrou seu discurso na abertura do Congresso Brasileiro de Genética, realizado no início do mês em Águas de Lindóia (SP). O geneticista foi o grande homenageado do evento e aproveitou para alardear a necessidade urgente de se criar um "movimento antropofágico da ciência".

Envolvido diretamente com a formação de mais de 70 pesquisadores e com a autoria de 400 trabalhos científicos, Beiguelman contribuiu de forma definitiva para os estudos da hanseníase no Brasil. Presidiu a Sociedade Brasileira de Genética entre 1970 e 1972. Foi ainda um dos fundadores do departamento de genética da Unicamp, universidade que outorgou a ele o título de professor emérito em 2004.

Nascido em Santos em 15 de maio de 1932 – ele era torcedor do Jabaquara, pois, como diz, o "Santos era o time da alta sociedade do café, e não gostava muito de negros" –, Beiguelman acredita que a auto-estima do pesquisador brasileiro esteja em baixa. Entre outros motivos, isso ocorreria pelo pouco reconhecimento que as revistas brasileiras e a língua portuguesa têm hoje no cenário científico mundial.

Em entrevista à Agência FAPESP, o cientista explica mais sobre por que chegou o momento de se criar um movimento de nacionalização da ciência. Países como o Brasil, segundo ele, precisam usar a ciência para resolver seus muitos problemas e não, simplesmente, aderir aos modismos que vêm do estrangeiro.


Agência FAPESP - Quer dizer que a ciência brasileira está precisando de uma "Semana de Arte Moderna"?
Bernardo Beiguelman - Sem dúvida. Em relação à ciência ainda não ocorreu uma vontade generalizada de se fazer uma grande nacionalização. Em 1928, o movimento antropofágico fomentou a vontade de nacionalizar a literatura, as artes plásticas. No Brasil, o movimento para tornar o país repleto de cientistas dentro das universidades começou depois da Segunda Guerra. Naquela época foi criada a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O próprio nome já é uma tradução da American Association for Advancement of Science. Claro que a SBPC, que está um pouco perdida hoje, mas ainda vai achar seu caminho de novo, teve um papel importante naquele período. Na ditadura, por exemplo, ela foi um baluarte político.

Agência FAPESP - Esse modelo estrangeiro segue até hoje?
Beiguelman - Para isso colaboram não apenas os cientistas mais velhos, os jornais também. Se o indivíduo publica alguma coisa em Nature, por exemplo, todos os jornais e revistas endeusam isso. Fulano fez um trabalho e saiu publicado lá porque interessa à revista norte-americana. Muitas vezes isso não interessa em absolutamente nada para os próprios brasileiros. Hoje em dia, o desprezo para os trabalhos nacionais de importância é fulminante. Olha-se com pouco caso um trabalho publicado apenas no Brasil e em português. Tem um exemplo de 1947, que nem é de hoje, muito bom. Um estudante de medicina da Universidade da Bahia, o Jessé Accioly, fez, em seu trabalho de conclusão de curso, um estudo detalhado sobre a anemia falciforme que foi publicado por uma revista da universidade. Na mesma época, James Neel, nos Estados Unidos, publicou uma coluna pequena em uma revista de prestígio sobre o mesmo tema. Acho até hoje que os louros da descrição da doença deveriam ter sido divididos, mas isso nunca ocorreu.

Agência FAPESP - Qual a conseqüência mais imediata desse pouco caso com o próprio país e com a própria língua?
Beiguelman - Isso gera uma perda da auto-estima do cientista brasileiro. No próprio Congresso Brasileiro de Genética é possível notar isso. Tem um monte de resumos apenas em inglês. Mas estamos no Brasil, onde a língua oficial é o português. As revistas boas, feitas aqui, rejeitam sumariamente trabalhos escritos na língua que se fala no Brasil. Isso é inclusive anticonstitucional.

Agência FAPESP - A língua inglesa, dentro do mundo científico, não facilita o diálogo entre os pares de nacionalidades diferentes?
Beiguelman - Não estou dizendo que temos que deixar de escrever e publicar em inglês. Tudo depende do artigo. Um artigo científico no plano geral, que vai ter uma importância global, tudo bem. Mas já vi um trabalho na revista da SBPC, sobre estudo cromossômico do tico-tico, em que o autor traduziu o nome do pássaro para o inglês. Isso é de um ridículo absurdo.

Agência FAPESP - Mas é possível fazer ciência hoje sem o relacionamento internacional?
Beiguelman - O que existe é um grande mecanismo de ascensão. A ciência é uma multinacional. Você tem os meios de subir e de cair. A sede do poder está no hemisfério Norte. Ele é que dita as modas e esse é o grande problema. Para você ser um cientista reconhecido, tem que fazer sucesso lá, trabalhar nos programas de lá. Se você fica apenas aqui, no hemisfério Sul, está frito. Nem sei como fui a para frente, para dizer a verdade. Trabalhei durante anos e anos em uma doença que apenas hoje começa a interessar o pessoal do Norte. Eles têm um doente importado para mostrar em aula.

Agência FAPESP - Existe uma fórmula para que seja criada uma ciência verdadeiramente nacional?
Beiguelman - Primeiro, não podemos tolher a liberdade de criação de ninguém. Mas acredito que uma das fórmulas de entrar em uma ciência nacional seria o trabalho interdisciplinar. E aqui quero fazer uma distinção clara entre isso e os projetos multidisciplinares. Nós estamos, por exemplo, acostumados a ver grupos de pesquisadores que vão estudar na Reserva do Xingu. Estão todos juntos, mas um colhe o sangue dos índios, outro vê como está a lactase intestinal – e às vezes até provoca diarréia nos índios – e outro verifica se existe tolerância ao leite. Ou seja, cada um tira uma fatia dos moradores da reserva. Muitas vezes, ninguém foi lá pensando de uma forma interdisciplinar.

Agência FAPESP - Apesar de essa cultura ter se alterado um pouco nos últimos tempos, como fazer para que as mudanças sejam aceleradas?
Beiguelman - Tem que começar olhando para os problemas regionais. Não adianta discutir a pesquisa em si e dizer: "Ah! Ciência é internacional". É preciso pensar em relação aos problemas locais. É claro que depois se passa para um plano superior, mas não adianta, por exemplo, querer fazer uma pesquisa sobre gado indiano no Alasca. Isso não faz sentido. O que vale é fazer esse tipo de pesquisa em Uberlândia ou Uberaba.

Agência FAPESP - O direcionamento dos projetos não acaba sendo muito grande?
Beiguelman - Aceito que existam pessoas que não queiram trabalhar em projetos interdisciplinares. Tudo bem, o direito à pesquisa não pode ser cerceado. Mas grande parte das pesquisas só vai ter desenvolvimento se existir um interesse naquilo. Países do Terceiro Mundo, principalmente, precisam pensar diferente. É preciso olhar para os problemas locais e regionais e ver como eles podem ser solucionados por meio da ciência. Esse processo pode até levar ao descobrimento de áreas novas de pesquisa, que sejam puras. Quando começou a genética, aqui no Brasil todos só faziam estudos em drosófilas. No momento em que se percebeu que era possível trabalhar com seres humanos, o interesse mudou os rumos dos trabalhos.

Agência FAPESP - A chave, então, é interdisciplinaridade e foco nos problemas locais ou regionais?
Beiguelman - Sim, é claro. É preciso ter cientistas das mais variadas áreas para resolver o problema. No caso de uma questão oceanográfica, relacionada à diminuição da pesca em parte do litoral, por exemplo, não adianta ter apenas o geneticista do camarão. Tem ter que mais pessoas: oceanógrafos para os detalhes físicos e químicos, sociólogos para as comunidades de pescadores, ecologistas e assim por diante. Precisa haver um estudo integrado de todos esses fatores. Mesmo com um problema importante a princípio, acabarão surgindo outros no meio do caminho.

Agência FAPESP - Quer dizer que não existe muito aquela idéia das descobertas ao acaso?
Beiguelman - Chego a ficar com urticária quando começam com essa história. Dizem que grandes descobertas sempre foram ao acaso, e citam exemplos como o do Michel Faraday [1791-1867]. Todos gostam de dizer: "Olha a eletricidade, ele nem pensava nisso quando ocorreu a descoberta". Mas isso equivale a dizer: "Vou pegar um avião, sobrevoar a selva amazônica e jogar um tijolo lá de cima. Nunca se sabe. Amanhã alguém passará por lá e pode construir uma casa a partir do primeiro tijolo". É claro que isso é conversa mole. A ciência só vai ser algo de vanguarda mesmo quando existirem condições para isso. Gosto de dar, nesse caso, o exemplo da própria genética.

Agência FAPESP – Qual exemplo?
Beiguelman - Gregor Mendel [1822-1884] descobriu as leis básicas da genética no final do século 19. Isso ficou engavetado por 35 anos e ninguém reconheceu aquilo. Apenas em 1900, três pesquisadores diferentes redescobriram o trabalho dele. Praticamente, as famosas leis básicas foram descobertas duas vezes. A minha pergunta é: qual foi o papel do Mendel para o desenvolvimento da genética. Resposta: zero. Nunca ninguém deu bola para ele. Não adiantou nada estar na vanguarda daquele conhecimento porque estava deslocado do todo. Não tinha nada a ver com a época.

Agência FAPESP - Essa cultura da multidisciplinaridade e do entendimento desse processo de descobertas não precisaria ser ensinada desde o início para os jovens estudantes?
Beiguelman - Claro que não conseguimos nessas duas questões uma mudança de uma hora para outra. Eu costumava ser muito crítico com os cursos de pós-graduação, pois estávamos multiplicando os profissionais, mas sem uma criatividade direcionada para os novos cursos. Mas hoje penso diferente. Esse aumento de quantidade está dando frutos. A diversificação está ocorrendo. A garotada está trabalhando nas coisas mais avançadas. O problema é que ainda falta uma certa integração. Falta se voltar mais para os problemas nacionais no lugar daqueles que estão exclusivamente na moda. As casas que lançam a moda mundial sempre foram as "maisons" de Paris, Londres e Nova York. Sem trabalhar nos problemas da moda você não é aceito, porque não aparece no hemisfério Norte, na sede do poder.

Agência FAPESP - Células-tronco são um problema da moda?
Beiguelman - Os problemas médicos normalmente estão relacionados com o sofrimento individual. A medicina não é um bom exemplo. Nesse campo é preciso sempre fazer o que existe de mais moderno. Isso é indiscutível. Estou falando de outras áreas da ciência, da física, química e assim por diante. De todas as áreas onde existe a necessidade de se voltar para os nossos problemas.


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