Abordagem dupla | AGÊNCIA FAPESP

Portadores de diabetes tipo 1 tornam-se independentes de injeções de insulina após receberem tratamento com base em quimioterapia e transplante de células-tronco. Estudo, feito por pesquisadores da USP, foi publicado no Journal of the American Medical

Abordagem dupla

11 de abril de 2007

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Um grupo de 15 pacientes com diabetes tipo 1 recebeu um tratamento que incluiu altas doses de quimioterapia e o transplante de células-tronco originárias de suas próprias medulas ósseas. O resultado foi animador: 14 deles ficaram, até agora, independentes das altas doses diárias de insulina que recebiam, uma vez que seus organismos voltaram a produzir a substância.

O estudo, cujos resultados foram publicados na edição desta quarta-feira (11/4) do Journal of the American Medical Association (Jama), foi realizado por pesquisadores do Centro de Terapia Celular (CTC) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP.

Coordenada por Julio Voltarelli, a equipe teve colaboração de Richard Burt, da Faculdade de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos.

O diabetes tipo 1, também conhecido como diabetes juvenil ou insulino-dependente, atinge cerca de 1 milhão de pessoas no Brasil. Segundo Voltarelli, a doença corresponde a, no máximo, 10% dos casos de diabetes, mas é justamente o tipo mais grave, principalmente para crianças.

"Ainda é muito cedo para se falar em cura. Como constatamos a ausência de efeitos colaterais, pretendemos agora ampliar o número de testes e tentar a terapia em crianças, que são o principal foco de interesse", disse Voltarelli à Agência FAPESP.

De acordo com o imunologista, o estudo, iniciado no fim de 2003, foi feito com pacientes entre 12 e 35 anos. Todos estavam em estágio inicial da doença, até seis semanas após o diagnóstico. "Nessa fase, eles ainda têm uma reserva de células produtoras de insulina no pâncreas", explicou o pesquisador.

O primeiro passo foi submeter os pacientes a uma imunossupressão, isto é, receberam altas doses de drogas que desativam o sistema imunológico, impedindo-o de atacar as células do pâncreas. "O diabetes tipo 1 faz com que as próprias células do sistema de defesa do corpo ataquem as que estão no pâncreas e são especialistas na produção de insulina", disse Voltarelli.

Com o sistema imune "desligado", foram injetadas no sangue de cada paciente células-tronco de seu próprio corpo. O transplante possibilitou a reconstituição da medula e do sistema imunológico do doente, após receber agressiva quimioterapia.

"Com isso, conseguimos uma recuperação rápida do sistema imune, de até nove dias. Após o transplante, o sistema foi reconstruído de modo a não atacar mais o pâncreas. A maioria dos pacientes ficou livre da insulina", disse o pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.


Livre das injeções?

Voltarelli destaca, no entanto, que o estudo não revela uma cura para o diabetes, embora aponte um caminho para futuras terapias. "Ainda não sabemos quanto tempo vai durar o efeito. Os pacientes serão acompanhados ao longo de toda a vida", disse.

O acompanhamento dos pacientes feito até agora variou entre sete e 36 meses. "O primeiro deles foi o único que não teve tratamento bem-sucedido e voltou a usar insulina um ano após o transplante. Mudamos um pouco os parâmetros e os outros 14 pacientes ficaram independentes da insulina", disse o imunologista.

Um dos pacientes está livre das injeções de insulina há 35 meses, quatro há pelo menos 21 meses e sete há mais de seis meses. Dois deles, com resposta mais tardia, ficaram independentes da insulina por um e cinco meses, segundo o estudo. Houve efeitos colaterais em apenas três pacientes – um teve pneumonia e dois tiveram disfunções endócrinas.

O artigo Autologous nonmyeloablative hemaopoietic stem cell transplantation in newly diagnosed type 1 diabetes mellitus, de Julio Voltarelli e outros, pode ser lido por assinantes do Jama em jama.ama-assn.org.

 

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