A vez da heliosfera | AGÊNCIA FAPESP

Cientistas de 191 países aprofundam conhecimento sobre as relações entre o Sol, a Terra e o espaço interplanetário sob influência magnética do astro-rei no Ano Heliofísico Internacional, comemorado 50 anos após o Ano Geofísico

A vez da heliosfera

27 de março de 2007

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Em 1957, mais de 60 mil cientistas de 67 países uniram forças para produzir um salto sem precedentes no conhecimento sobre o planeta. Naquele Ano Geofísico Internacional, uma imensa variedade de experimentos e observações resultou em descobertas importantes sobre a Terra e o geoespaço, como a magnetosfera, o vento solar e os cinturões de radiação de Van Allen. O programa iniciou a era espacial, coincidindo com o lançamento dos primeiros satélites artificiais da história, o Sputnik russo e o Explorer norte-americano.

Cinqüenta anos depois, pesquisadores do mundo inteiro preparam um salto científico ainda mais ambicioso: 2007 é o Ano Heliofísico Internacional (AHI). Em vez de abordar o espaço terrestre, como em 1957, os estudos serão estendidos a toda a heliosfera – a região, definida pela atuação do campo magnético e vento solar, forma um volume com uma distância típica de aproximadamente 100 vezes a distância entre o Sol e a Terra.

Um dos coordenadores do AHI na América Latina, Jean-Pierre Raulin, explica que o objetivo do programa é entender os processos que governam a heliosfera, mas também o Sol, a Terra e as relações entre os corpos celestes. Os dados provenientes da iniciativa ficarão à disposição de cientistas e engenheiros de todos os países e os resultados serão comunicados em coletivas de imprensa, reuniões cientificas e palestras públicas, além da campanha de divulgação científica em escolas e universidades que faz parte do programa.

De acordo com Raulin, que é professor do Centro de Rádio Astronomia e Astrofísica Mackenzie (Craam) da Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, a ciência tem observado muitas mudanças na atmosfera terrestre e não se sabe a influência da atividade solar nesses fenômenos. Sabe-se, por exemplo, que explosões solares podem afetar as telecomunicações e outros sistemas tecnológicos, mas sua interferência no clima global é desconhecida. Alterações importantes do ciclo de atividade solar já aconteceram no fim do século 17 e início do século 18, com reconhecidos impactos climatológicos na Terra.

"Esperamos aprofundar muito o conhecimento sobre essas questões ao estudar eventos e fenômenos no espaço interplanetário e suas interações com a nossa atmosfera. Pela primeira vez a heliosfera será abordada como um sistema vasto e integrado e não como um grupo de entidades individuais sem relações entre elas", disse Raulin à Agência FAPESP.

Segundo o professor, as atividades do AHI serão realizadas dentro da tradição do primeiro Ano Geofísico Internacional, envolvendo programas coordenados de pesquisa em 191 países. A diferença é que, desta vez, a proposta é voltada para estudos interdisciplinares de processos e fenômenos físicos universais, encontrados em ambientes diferentes, como mudanças topológicas magnéticas, acelerarão de partículas, formação de choques e auroras.

O programa foi dividido em cinco temáticas científicas principais: "Evolução e geração de estruturas magnéticas e transientes", "Transferência de energia e processos de acoplamento", "Fluxos e circulações", "Fronteiras e interfaces" e "Estudos sinóticos do sistema acoplado sol-planetas-heliosfera".

Com sede na Nasa, a agência espacial norte-americana, no estado de Maryland, o programa se estrutura em coordenações regionais. Na América Latina, participam seis países: Brasil, Argentina, México, Peru, Colômbia e Chile.

"Estamos trabalhando há três anos na preparação do AHI. Cada grupo propôs um programa coordenado de investigação baseado em estudos teóricos e observações. O Brasil, por exemplo, apresentou cinco programas. Agora todos eles estão sendo integrados pela coordenação internacional", disse Raulin.


Divulgação científica

Outro importante objetivo do programa é mostrar ao público em geral a relevância que têm as ciências espaciais e geofísicas para a humanidade. As atividades de divulgação científica incluem palestras tutoriais, palestras específicas de pesquisa, demonstração de resultados de pesquisa e visitas a laboratórios.

"As ações em escolas, colégios e universidades buscam formar novos recursos humanos na área, como estudantes de graduação, pós-graduação, e futuros pesquisadores", disse Raulin. Na América do Sul, segundo ele, as atividades em instituições acadêmicas começaram em 2006, no Peru, na Argentina e no Brasil. São previstos novos encontros em 2007 no México e em 2008 no Brasil.

Raulin explica que o Ano Heliofísico teve adesão da Organização das Nações Unidas (ONU), por meio de seu programa para estudo das ciências espaciais básicas. O resultado da colaboração foi viabilizar a interação entre grupos de cientistas de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento.

"Com isso, o programa se beneficiou da instalação de novas redes instrumentais para estudo de fenômenos globais associados às relações solar-terrestres. Com estas novas redes extensas, de baixo custo, pretendemos fazer ciência relevante e formar bons recursos humanos. A exemplo do que foi feito em 1957, teremos um ganho permanente", disse Raulin.

Mais de 2 mil cientistas participaram dos diferentes congressos que trataram desta cooperação, de acordo com Raulin. Com isso, surgiram mais de dez redes, ainda em implantação, de imageamento de distúrbios ionosféricos, de monitoramento de sinais de GPS, radiotelescópios, detectores de raios cósmicos e de magnetômetros.

"Na América Latina, serão instalados de sete a nove receptores de muito baixa freqüência, com o objetivo de monitorar a atividade solar por meio de seu impacto na nossa ionosfera. Outro objetivo é o estudo da região da anomalia magnética do Atlântico Sul que está centrada na região Sul do Brasil", explicou o professor do Craam.

Segundo Raulin, a região tem um campo magnético mais fraco que o normal nestas latitudes, resultando em uma precipitação de partículas maior do que em qualquer outro lugar da Terra. "Esse fenômeno não é bem compreendido e a estrutura da região não é bem conhecida. O escudo, nossa magnetosfera, que protege a Terra da injeção do vento solar, de massa coronal do Sol e de partículas muito energéticas, é mais fraco nessa região. Por isso, há grande ocorrência de falhas em sistemas eletrônicos a bordo de satélites", disse.

Uma das principais características do AHI é a abordagem interdisciplinar. De acordo com Raulin, os diversos estudos contarão com pesquisadores especializados em raios cósmicos e física da heliosfera, física solar, física de magnetosferas e ionosferas planetárias, e estudos climatológicos. "A idéia é que todos trabalhem juntos em torno dos conceitos e fenômenos físicos que foram qualificados como universais, de forma que se desenvolvam teorias para explicar uma série de fenômenos", afirmou.

Mais informações: http://ihy2007.org e www.alage.org


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