Lafer recebe título da diretora do IRI, Maria Hermínia Tavares Almeida. Cerimônia de outorga teve apresentação de Fernando Henrique Cardoso (foto:Eduardo Cesar/FAPESP)

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Celso Lafer recebe título de professor emérito

17/08/2012

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – O presidente da FAPESP, Celso Lafer, recebeu o título de professor emérito do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo (USP), em cerimônia realizada nesta quarta-feira (15/08), na Cidade Universitária, na capital paulista.

Vinculado ao IRI desde o início de suas atividades, Lafer se tornou o primeiro professor emérito do instituto criado em 2004 a fim de promover a pesquisa, o ensino e a disseminação de conhecimentos na área de relações internacionais, além de estreitar vínculos acadêmicos com instituições nacionais e estrangeiras e aumentar o entendimento público sobre os assuntos mundiais.

O quadro acadêmico do IRI é formado por cientistas políticos, economistas, historiadores, juristas, administradores e sociólogos pertencentes a outros departamentos da universidade. Lafer é professor aposentado da Faculdade de Direito da USP, onde chefiou o Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito.

De acordo com a diretora do IRI, Maria Hermínia Tavares Almeida, Lafer recebeu o título em “reconhecimento à sua relevante contribuição no campo do ensino e da pesquisa”. A trajetória acadêmica de Lafer foi apresentada pelo ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, durante a cerimônia de outorga, que também teve a participação do reitor da USP, João Grandino Rodas.

“Entregamos o título de professor emérito a Lafer não apenas pelo papel importante que ele desempenhou no IRI, mas principalmente por se tratar de um fundador da área de relações internacionais no Brasil, um acadêmico pioneiro cuja obra foi fundamental no estabelecimento de um pensamento original sobre política exterior. A obra de Lafer é um ponto de partida e um referencial para os pesquisadores brasileiros”, disse Almeida.

Segundo Almeida, ao outorgar o título a Lafer, o IRI indica qual é o tipo de acadêmico que pretende formar, capaz de atuar tanto no campo intelectual como na prática da vida pública.

Lafer, que é autor de diversas obras sobre filosofia, direito internacional, direitos humanos e política brasileira, também atuou como diplomata, ministro das Relações Exteriores, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e vice-presidente da Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (RIO-92).

“Como poucos, o professor Lafer soube desenvolver sua carreira bem- sucedida sobre o delicado equilíbrio entre o conhecimento e a ação. Encontrou esse equilíbrio difícil entre a independência para pensar, que caracteriza a vida intelectual, e a militância pública”, disse Almeida.

Lafer está ligado à origem do IRI em sua concepção e foi um dos fundadores do instituto. De acordo com Rodas, em sua curta trajetória, o IRI conseguiu projeção nacional e internacional e teve sua orientação inovadora reconhecida pelos estudantes, uma vez que seu curso de graduação se tornou um dos mais concorridos na USP.

“Em 2010, o IRI deixou de ser um instituto atrelado a outras estruturas e se tornou mais uma das unidades da USP, o que abre a perspectiva para que a excelência de suas atividades aumente ainda mais. A outorga do título de professor emérito a Lafer dignifica mais o instituto que o próprio professor”, afirmou Rodas.

Cardoso afirmou que a obra de Lafer é uma das que modelam a universidade, transformando-se em um marco perene na vida acadêmica. “Poucos professores têm influência tão grande. Lafer encarna a essência da USP no que ela tem de melhor: um terreno de memória intelectual e rigor na ciência acadêmica, de engajamento corajoso nas causas da defesa da liberdade de pensamento dos direitos do homem. A grandeza da instituição não é uma mera abstração, está ligada à história de personagens como Lafer”, disse Cardoso.

O título de professor emérito, segundo Cardoso, não é apenas uma homenagem a uma carreira passada, mas uma celebração aos laços com os alunos e com a universidade, que continuam ainda hoje.

“Lafer é um grande professor, um inventor de temas, alguém que demonstrou como poucos a vocação pública do magistério universitário. É o mais cuidadoso cientista social, orientado pelos melhores valores e pelo que ele mesmo chama de paixão pela racionalidade”, disse.

Segundo Cardoso, cada uma das etapas da carreira de Lafer foi marcada por obras singulares, sempre fornecendo uma compreensão inovadora, consistente e profunda de algum tema-chave que se estendia para além da academia.

“Não cabe fazer uma análise ampla da obra de Lafer – sou um simples aluno, que ouve e respeita suas lições. Seus escritos refletem seu hábito de professor, que mostra sem disfarces a razão dos argumentos, apontando conexões inesperadas. São livros marcantes que revelam a consistência com que modela seu pensamento. Cada passo prepara o seguinte, para formar o arcabouço sólido de um pensamento original e com identidade própria. Não há tema de cultura que seja distante ou estranho a ele”, disse.

Consolidação institucional

Lafer disse que interpreta a outorga do título de professor emérito como a expressão da consolidação institucional do IRI como uma unidade de ensino e pesquisa da USP, que vem adquirindo crescente prestígio nacional e internacional.

“Estou vinculado ao IRI desde o início de suas atividades. Ao longo da minha vida de professor da USP, iniciada em 1971, empenhei-me em conferir ao ensino das relações internacionais na universidade um patamar apropriado, por meio da abertura para a cooperação multidisciplinar. A ideia que sempre me inspirou foi a de somar talentos e competências do direito, economia, política e história, para alargar de maneira integrada os horizontes da academia”, afirmou.

Lafer destacou como começou a esboçar, em 1989, em parceria com o professor Jacques Marcovitch, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), a criação de uma área de relações internacionais no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.

A empreitada deu origem ao Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP (Gacint), seminário permanente, que reúne acadêmicos, empresários, dirigentes de organizações da sociedade civil, diplomatas, militares e outros funcionários governamentais graduados. “O Gacint, do qual faço parte, atualmente integra o IRI, com sua natureza de rede de competências de diversas procedências”, contou.

Na gestão de Marcovitch como reitor da USP, iniciada em 2002, foi criado o primeiro curso de bacharelado de relações internacionais na universidade, vinculado na época à Pró-Reitoria de Graduação. Em 2003, foi preciso dar ao curso um enquadramento institucional próprio. O reitor José Adolpho Melfi, que acabara de assumir, deu a Lafer a incumbência de presidir a comissão que iria propor a nova organização institucional.

“Em outubro de 2003, a comissão apresentou o anteprojeto do regimento do que viria a ser o IRI. A proposta tramitou até ser aprovada em 2009, quando se iniciou a vida do IRI como instituição especializada, com características próprias de multidisciplinaridade. Em 2011, o instituto ganhou sua própria sede”, disse Lafer.

O IRI hoje conta com 320 alunos e tem o quarto curso mais concorrido da USP. “Na pós-graduação, criada em agosto de 2009, estão matriculados 61 alunos, com 11 mestrados já concluídos”, contou Lafer, que ofereceu um curso de pós-graduação no IRI em 2010 e integrou o conselho deliberativo do instituto até 2011.

Vida pública e atividade intelectual

Nascido em 7 de agosto de 1941, em São Paulo, Lafer diplomou-se em direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 1964. Realizou mestrado (1967) e doutorado (1970) em ciências políticas na Cornell University (Estados Unidos). É professor aposentado da Faculdade de Direito da USP, onde chefiou o Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito.

Lafer foi ministro das Relações Exteriores em 1992 e novamente em 2001 e 2002 e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio em 1999. Em 1992, foi vice-presidente da Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (RIO-92), realizada no Rio de Janeiro.

De 1995 a 1998 foi embaixador, chefe da Missão Permanente do Brasil junto às Nações Unidas e à Organização Mundial do Comércio em Genebra. Na OMC, foi presidente do Órgão de Solução de Controvérsias (1996) e do Conselho Geral (1997).

Recebeu, em 2002, a mais alta condecoração da Ciência e Tecnologia do Brasil, a Ordem Nacional do Mérito Científico. É membro da Academia Brasileira de Ciências (eleito em 2004) e da Academia Brasileira de Letras (eleito em 2006).

Doutor Honoris Causa da Universidade de Buenos Aires (2001), da Universidade Nacional de Córdoba (2002) e da Universidade Nacional de Tres de Febrero (2011) – todas na Argentina – e da Universidade Jean Moulin – Lyon 3 (2012), da França, recebeu, entre outras distinções, o Prêmio Moinho Santista na área de Relações Internacionais (2001).

Desde setembro de 2007, Lafer preside a FAPESP. É autor de diversas obras sobre filosofia, direito internacional, direitos humanos e política brasileira.

 

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