Geraldo Busatto recebe auxílio da Narsad (EUA) para estudar se ressonância magnética pode diferenciar transtorno bipolar e hiperatividade em adultos (Divulgação)

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Pesquisador brasileiro ganha Independent Investigator Award

07/10/2010

Por Fábio de Castro

Agência FAPESPGeraldo Busatto Filho, coordenador do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), recebeu o Independent Investigator Award, concedido pela Aliança Nacional pela Pesquisa sobre Esquizofrenia e Depressão (Narsad, na sigla em inglês), nos Estados Unidos.

A Narsad é considerada a maior organização não-governamental do mundo dedicada a levantar recursos financeiros de doadores para apoiar projetos científicos considerados promissores e relacionados a saúde mental, com ênfase em aspectos envolvidos em transtornos psiquiátricos como esquizofrenia, depressão, transtornos da infância como autismo, déficit de atenção e hiperatividade, transtorno bipolar e transtornos de ansiedade.

O Independent Investigator Award, uma das principais modalidades de auxílio da Narsad, é concedido anualmente a cerca de 40 pesquisadores. Busatto, cuja linha de pesquisa é voltada para o uso de técnicas de neuroimagem no estudo dos mecanismos cerebrais subjacentes aos sintomas dos transtornos psiquiátricos, foi o único cientista do hemisfério Sul a receber o auxílio em sua edição de 2010.

Com os recursos concedidos pela Narsad, Busatto irá liderar um projeto que envolve o uso de exames de ressonância magnética do crânio para avaliar um dilema diagnóstico importante na psiquiatria: a diferenciação entre transtorno bipolar e déficit de atenção (e hiperatividade) em adultos.

“Trata-se de uma questão importante na prática clínica. Até alguns anos atrás se considerava válida a ideia de que déficit de atenção e hiperatividade não pudessem persistir na vida adulta. Acreditava-se que eram diagnósticos próprios da infância e adolescência. Nos últimos anos, a partir de estudos epidemiológicos, foi constatado que há uma alta prevalência desse quadro clínico na vida adulta. A pesquisa terá a preocupação de abrir perspectivas diretas para o tratamento”, disse Busatto à Agência FAPESP.

Segundo ele, cada vez mais se suspeita que é comum confundir os diagnósticos de transtorno bipolar com os de hiperatividade e déficit de atenção na vida adulta. “Isso se reflete em uma questão prática de grande importância: se houver confusão no diagnóstico, o médico pode fazer escolhas terapêuticas equivocadas e, eventualmente, levar até mesmo a uma piora do quadro clínico”, explicou.

Busatto enfatiza, no entanto, que o projeto é um estudo de fronteira da ciência, que não terá aplicação imediata na prática clínica: as imagens de ressonância magnética feitas em pessoas com diagnósticos psiquiátricos não são capazes de detectar nenhum tipo de alteração característica de forma direta.

“Estamos falando de processamentos computacionais voltados para a classificação de desvios extremamente sutis da normalidade. Essas alterações não seriam visíveis a olho nu nas imagens. Atualmente, não existe – e nem é possível antever – possibilidade de aplicação clínica desses métodos, como se fossem uma radiografia do padrão de transtorno bipolar”, explicou.

O projeto financiado pela Narsad consistirá em avaliar cerca de 30 indivíduos em cada um dos grupos diagnósticos. Os pacientes serão tratados e seguidos ao longo do tempo para confirmação dos diagnósticos.

“Depois de um determinado período – de três meses a um ano –, vamos saber se o diagnóstico permaneceu o mesmo e identificar qual tratamento teve as melhores respostas. A partir daí, retrospectivamente, iremos comparar o desfecho clínico dos casos com os diagnósticos de imagens”, disse o professor da FMUSP.

Para a realização do projeto, os pesquisadores deverão fazer uma parceria com grupos de atendimento a pacientes no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, em especial com o Programa de Déficit de Atenção e Hiperatividade (Prodath), que atende portadores das doenças na vida adulta.

“Em parceria com esses grupos, vamos classificar os pacientes diagnosticados e tratá-los na instituição. Os recursos do Narsad serão utilizados para o pagamento de pessoal de pesquisa, dos exames e dos custos envolvidos no processamento de dados”, disse Busatto.

Apoio da FAPESP

Segundo o pesquisador, o projeto apresentado à Narsad foi agraciado com o limite máximo do valor alocado para a modalidade, de US$ 100 mil. “Mas não teria sido possível chegar a receber uma distinção como essa, em uma seleção altamente competitiva, sem o apoio da FAPESP durante 14 anos”, disse.

Busatto coordena atualmente o projeto “Novas ferramentas automatizadas para avaliação neuropsicológica: processos cognitivos de tipo social e correlatos cerebrais”, com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular. Suas pesquisas vêm recebendo apoio da Fundação desde 1996, quando obteve financiamento para um projeto no Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes.

“O objetivo do projeto era criar um núcleo de aquisição e processamento de imagens cerebrais para pesquisa em psiquiatria. Desde então fui investigador principal de um grande número de estudos de análise cerebral e psiquiatria com auxílio da FAPESP”, destacou.

Esses projetos, segundo Busatto, têm gerado muitas publicações e, com essa base, seu grupo pôde caminhar na direção dos estudos atuais: verificar se os dados de ressonância magnética do crânio poderão, no futuro, ser usados para melhorar os diagnósticos em psiquiatria.

Mais informações: www.narsad.org
 

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